A melhor mãe do mundo…era (e é) a minha

Minha mãe foi homenageada  na exposição “Mulheres, História e Memórias: mulheres que fizeram a história dos
Inhamuns”, em Tauá, cidade onde moramos e nos pediram  que fizéssemos uma breve biografia dela. Abaixo o texto feito por mim e minha irmã Anatália. Não costumo expor minha intimidade na rede, mas senti necessidade de homenageá-la de algum jeito pra ver se ameniza a falta que sinto dela. Saudade dói.

Raimunda Saraiva Martins, “Raimundinha” ou “Mundinha” como era carinhosamente chamada, nasceu em 10 de março de 1942. Natural de Senador Pompeu, Ceará. Adotou Tauá como sua cidade de coração e foi adotada pela princesa dos Inhamuns e por seus muitos amigos que a acolheram.

Chegou na cidade em 1970 com suas filhas Anatália Saraiva Martins e Andréa Saraiva Martins acompanhando o esposo, Evaldo Martins. Trícia Saraiva Martins e Herlon Saraiva Martins, seus outros filhos, nasceram tempos depois, naturais de Tauá. Migrou para Fortaleza no início de 1990, devido à necessidade de formação universitária dos filhos. Suas ligações de amizade e de profissionalismo permaneceram, mesmo após sua mudança para a capital.

Em 02 de setembro de 2003, ela nos deixou. Essa repentina despedida de sua vida foi um marco para sua família e para muitos amigos queridos. Deixou cinco netos: Vítor, Eugênio e Pedro, filhos de Anatália e Rubens; Eduardo e Helena, filhos de Herlon e Samira; e Vitória, filha de Trícia e Wagner.

Em meio às oportunidades de uma cidade que começava a crescer, sentiu necessidade de avançar seu papel de dona-de-casa exemplar para também enveredar para o caminho profissional. Foi o despontar de uma das melhores estilistas de moda já vistas. Tauá, além de acolhê-la e à sua família, a revelou.

Seu apuro e primor pela perfeição, unindo técnica do corte à arte, contribuíram para, rapidamente, espalhar sua fama na cidade, tornando-a a mais disputada modista da região.

Muitas foram as vezes em que varava noite para não desapontar a clientela e dar vencimento às crescentes “encomendas”.

Não se limitando ao simples costurar roupas, passou a inovar, trazendo os próprios tecidos com os figurinos de “última moda” da capital, captando as tendências e ousando nos modelos. Sempre pensando em suas clientes-amigas ou amigas-clientes. Ela não fazia bem essa distinção.

Ela punha os olhos na “fazenda” – como se chamava à época – e já vislumbrava em quem caberia aquela roupa. Não errava uma. Não raro era a cliente encomendar roupa e só passar para pegar.

Muitas vezes ela as fazia vestir, pois não se perdoaria se saísse uma folga desnecessária ou um franzido fora do lugar. Respeitava as diferenças entre as pessoas, moldava o gosto, nunca o impunha, por isso sua modelagem tinha que ser mesmo especial. Tinha que ser exclusivo. Cada peça sua era única.

A fama de Tauá da terra de gente que ‘se veste bem’, ganhava o mundo…havia pessoas de cidades vizinhas que vinham à cidade somente para ter um dos modelos exclusivos feitos por suas mãos talentosas.

Amiga de todos, jamais negou apoio, conselho ou ombro a quem quer que a procurasse. Tudo nela engendrava confiança, amparo. Não fazia distinção entre pobres e ricos, sua casa-ateliê era uma porta aberta, um cafezinho fresco a toda hora do dia.

O curioso é que, por mais que o anedotário popular indique que casa de costureira é ‘antro’ de fofocas, nunca se soube em todos esse anos que ela tenha fugido à ética e respeito às amizades. Era o único lugar na cidade onde oposição e situação se confraternizavam. Era local de armistício temporário em nome do sentir-se bem. Não é forçoso afirmar que ela emanava essa paz.

Mãe, esposa, avó, amiga, profissional, empreendedora, essa admirável mulher soube conjugar todas as inúmeras facetas do universo feminino com muita dignidade. Ousada e discreta, batalhadora e visionária: vívida.

Ela não só tinha bom gosto. Ela tinha bom-gosto pela vida!

Um ser humano feito de matéria rara. Provavelmente da mesma matéria que o amor e a simplicidade são talhadas. Dessas que nada a demoveu da capacidade de sonhar e nem de amar. É imortalizada agora na memória afetiva da princesa dos Inhamuns – desnecessária, ela diria, dada a modéstia que lhe era peculiar – mas muito sincera e carinhosa e recíproca, a reconheceria.

No espelho hipotético de seu ateliê, certamente está o reflexo do carinho recebido e doado durante esses anos que o sertão tauaense floresceu de arte e de afeto e de bem-querer.

Aqui , num dos momentos mais felizes que ela tinha que era estar com seus netos:

Saudade, minha maezinha.

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Sobre andreasaraiva

Sou cearense e vivo no mundo. Curiosa, língua afiada e doida por cerveja com caranguejo...

Publicado em maio 13, 2012, em Geral. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Nossa, Andrea querida,
    Que bela homenagem à tua saudosa e amada mãezinha, dona Mundinha, justo pelo dia consagrado às Mães!
    Parabéns querida! Logo lembro do velho dito popular: ” Afruta não caiu longe do pé!”
    Foi outra missão de tua mammy, te ensinar a seres uma pessoa muito especial!
    E lá na eternidade ela brilha a iluminar os caminhos de seus filhos.
    Eu sei o quanto dói muito essa saudade sem fim!
    Abração cheio de carinho e obrigada por compartilhar tua homenagem e tua dor,
    Marly Cuesta

  2. Vitória Feitosa

    Oi Andréia, linda homenagem a sua mãe, com certeza foi uma visionária e que deixou muitas saudades não so pelo talento mas pela pessoa generosa que ela era e eu, simplesmente, a adorava. bjs

  3. sabe que agora a saudade foi grande dos tempos em que a casa De Dona Raimundinha era transformada em clube para nossas festa(discoteca). um grande abraço a essa familia que vez parte da minha vida aqui em Taua.

  4. Déa eu sou testemuna viva, nāo conto as vezes em que a roupa chegava de Tauá no cabide na hora do evento eu só esperando a roupa chegar e Feitosa me dizia vc é louca qualquer dia a Raimundinha não vai conseguir mandar essa roupa ou ela nao vai caber em vc. E ela Firme com a cliente dela : a roupa chegava e nunca precisou um retoque. Não conto as vezes em que eu sai de casa p ir só tomar o cafezinho no Ap com ela. Tenho muita saudades….

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