HISTÓRIA DOS POVOS INVISIVEIS DO SEMIÁRIDO

Aqui no nordeste, nas suas profundezas, longe do mar, no sertão, o processo de colonização se deu de forma diferenciada do restante do país. Se no litoral o processo de colonização teve como sustentação econômica a monocultura açucareira que utilizou mão de obra escrava africana, por aqui, a colonização chegou mais tardiamente e ao invés de caravelas, a invasão veio a cavalo tangendo boi, com cruz e espada abrindo caminho para colocar cerca e se apossar de terras pra criar gado.

A natureza propícia à pecuária, a demanda de povoamento para consolidar o império lusitano, a igreja ampliando seus domínios e outros fatores concorreram para tornar esse processo de colonização, peculiar.

Peculiaridade completamente ignorada pelos livros de história oficial.

Escrita de fora pra dentro, a historiografia convencional limita-se a focar – quando muito – no enaltecimento dos “conquistadores” sertão adentro. Demonstrando seus feitos heróicos e desconhecendo completamente os fatos anteriores à sua chegada bem como se tem negado a colocar o processo sangrento de embate entre os ditos “conquistadores” e os habitantes da caatinga de maneira equilibrada. Sem o fervor cartorial.

Enquanto o Brasil olhar sua história somente após a chegada dos colonizadores e sob sua perspectiva; se nos limitarmos a ver o nosso país somente pelo litoral enquanto a história do Brasil for contada pelo viés do conquistador, apenas, nunca saberemos quem somos, de fato.

O “Antes da Cerca” precisa ser estudado pra se entender o que restou dos povos originários habitantes da caatinga que seguem  anônimos, invisiveis, mas estão por todos os lados.

São os aldeados pela igreja
Os aliciados pelos coroneis
Os flagelados da seca
A mão de obra mais barata do mercado no periodo colonial
Os Arigós seringueiros
Os bucha de canhão de guerras imperiais
Os Soldados da Borracha
Os mortos do campo de concentração
Os bucha de Canhão de guerra dos governantes
A mão de obra mais barata do mercado e de todas as obras do governo
Os que abriram estradas
Os pião da construção
Os que Construiram cidades
Os que sobreviveram e nunca voltaram
Os Paraíba no Rio
Os Baiano em São Paulo
Os Ceará em Brasiia

Mulheres e crianças nunca existiram.

Nas diásporas históricas sucessivas voluntárias, involuntárias, induzidas e impostas, as que sobreviveram nunca tiveram nem rosto, nem nome, nem história.

De tantos e absurdos direitos usurpados aos povos originários, a retirada do direito à ancestralidade, à memória, à história talvez sejam dos mais perversos pois a negação destes nega o direito até de eventual reparação.

Urge um olhar de dentro pra fora, caminho seguro pra ajudar a entender quem somos é se dar a conhecer o que fomos.

indiosertao

 

Anúncios

Sobre andreasaraiva

Sou cearense e vivo no mundo. Curiosa, língua afiada e doida por cerveja com caranguejo...

Publicado em janeiro 28, 2016, em Geral. Adicione o link aos favoritos. 17 Comentários.

  1. Andrea, compartilhei no facebook e uma amiga de Alagoas agora ela quer adquirir o livro “A História dos Povos Invisíveis do Semiárido”. Vou pedir pra ela escrever um, rsrs. Você tem alguma dica de algo já publicado pra que possamos indicar aos interessados?

    • Como escrevi no artigo, há poucos estudos que foquem esse tema. Estou pesquisando e pretendo publicar o resultado. Concomitante, criei um GT que dentre outras coisas reunirá artigos, biografia, literatura sobre o assunto. Se achegue.

      Agradeço o interesse.

  2. Interessante, gostaria de acompanhar esse GT, Andrea. Onde encontro?
    Ahh, parabéns 🙂

  3. Maria do Socorro Brito Silva

    Também me interessei pelo assunto, aliás, jamais havia pensado nessa hipótese, que pode ser realidade. Gostaria de adquirir o livro, onde posso comprar?

  4. Thaiane Pinheiro

    Adilson, bom dia!
    Procure no Google por João Pacheco de Oliveira, professor da UFRJ e antropólogo, ele possui vários escritos, inclusive um livro, no qual conta o processo de colonização diferenciado sofrido pelos indígenas do Nordeste, como também acerca da sua invisibilidade por serem lidos, muitas vezes, como remanescentes ou “misturados”.

  5. Meu bem, tenho interesse em receber os matérias. Segue meu contato:

    emanuel.lucassa@gmail.com

    Beijos

  6. Leiam Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre com certeza há muito deste período da colonização do Brasil e em especial do NE, nesta mesma linha.

    • Gilberto Freyre escreveu a partir da Casa Grande, nos propomos o olhar a partir da Senzala. Retratou o nordeste açucareiro litoraneo baseado na monocultura agrícola. O nosso foco abrange o sertão, a caatinga, a economia pecuária. Tem pouquíssimos estudos, pra riqueza do tema.

      • Muitos são os “erros” descontextualizados de Gilberto Freyre, mas não o de ter escrito apenas da “Casa Grande”. Suas descrições do modo de vida da senzala são riquíssimas, cheias de humanidade. Agora, de fato, o Nordeste freudiano é um Nordeste da Zona da Mata.

  7. Muito bom o artigo. Tenho interesse em receber seus textos. Compartilha comigo.

  8. Prezada,
    Chamou-me Mário, leciono no curso de história da UFC e tenho interesse pela temática. Coordenamos o Núcleo de Estudos sobre Memória e Conflitos Territoriais (www.comter.info). Como fazemos para acessar o GT e as publicações?

Dê seu pitaco...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: